Hey Buddy!

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   Se você me visse hoje, diria que eu sou apenas um garoto normal, na faixa dos 15 anos. Quem me conheceu falou apenas que eu posso saber de todas as coisas, e que isso é uma coisa boa. Afinal, quem não gostaria de ter acesso a todo o conhecimento humano a partir da mente, com um simples pensamento. Imagine poder acessar toda a informação registrada na internet. Um minúsculo chip chamado Google X-brain pode transformar um menino em… Sei lá! Não entendo direito o que posso dizer sobre isso. Neste momento não quero ficar pensando em nada, fujo dos pensamentos.

   Passaram horas, dias e meses andando por cidades solitárias, desertas. São ruínas melancólicas de tudo aquilo, que agora parece um sonho vago, daqueles que não se consegue lembrar ao acordar. Bem, não posso dizer que estou completamente sozinho. Tenho o meu amigo Buddy, meu cão, minha única companhia. Se é que dá para chamá-lo de cão, sendo um robô, que apenas imita tudo o que o melhor amigo do homem faria. Na verdade eu nunca vi um cachorro doméstico na minha frente, somente no Google imagens. Todos eles se foram antes de eu vir ao mundo. E o Buddy até abana o rabo e tem uma vasta gama de expressões bem realistas. Ainda dá para ver o logo do Google um pouco apagado na superfície de metal do seu torso. Ele tem uma bateria que precisa ser recarregada a cada 24 horas, por sorte tenho um carregador de energia solar portátil.

   Nós fazemos tudo juntos, caminhamos por florestas, estradas sem fim, cidades tomadas pela vegetação, que cresceu a ponto de cobrir os prédios de verde e dar lar a pássaros. Procuramos abrigo quando chove, fazemos fogo quando precisamos nos aquecer e tiramos muitas selfies, milhares delas. Tantas que não tem mais graça, pois não temos com quem compartilhar. Já faz muito tempo que a humanidade se foi. Restaram algumas espécies de animais, sei o nome de todos. Andamos sem destino procurando outros iguais a nós. Nunca vi um humano de verdade, só nos vídeos do youtube e os milhões de perfis no facebook, entre tantas outras redes sociais, que eles inventaram.

   Um dos meus passatempos favoritos era ficar admirando as pessoas e tudo o que elas viveram. Todos os seus registros, suas fotos, seus momentos de alegria, quando marcavam seus amigos em publicações nas redes sociais. Eu posso mostrar para o Buddy tudo o que acesso. Juntos visitamos milhares de perfis. Fazíamos de conta que aquelas pessoas eram nossos amigos também. No início eu ficava mais alegre, mas depois fui ficando triste. Dizia: – Hey Buddy, o que você acha sobre essas pessoas? Será que a vida delas era tão perfeita assim? Será que eles nunca ficavam tristes?

   Eu não sabia se aquilo tudo que vivíamos, eu e o Buddy, era a realidade, ou apenas um sonho, um delírio de alguém, ou, quem sabe, até fossemos personagens em um conto de ficção pós-apocalíptico escrito por algum estudante de jornalismo para um trabalho de aula. Estranhamente sempre que procuro no google pelo nosso nome aparece isso como resposta. Que loucura, não?

   Um dia passamos por um campo e o céu estava nervoso, preparado para uma tempestade. Um raio atingiu uma árvore em cheio fazendo o maior estrondo. Por pouco não nos atingiu. Lembrei de uma situação filosófico-científica proposta em um livro do Dr. Robert Lanza, chamado Biocentrismo. Ele fazia uma pergunta, que eu já fiz para o Buddy. Se uma árvore cair em uma floresta e não houver ninguém lá. Haverá som? Acho que o Buddy não entendeu bem, só virou a cabeça para o lado, como os cães fazem quando estão confusos e latiu em seguida. A verdade é que não haverá som algum se não houver uma mente capaz de interpretar as vibrações propagadas no ar pela queda da árvore. O som é apenas uma ilusão na mente, assim como tudo o que vemos, ouvimos e sentimos.

   Naquela noite nos protegemos em uma gruta, fizemos uma fogueira e esperamos a tempestade passar. Vi as nossas sombras projetadas na parede. Apenas um menino magricelo e um cão de metal. Lembrei do mito da caverna de Platão. Afinal, o que é real? Poderíamos ainda estar sonhando? Isso tudo me fez pensar que, talvez, a vida daquelas pessoas do passado não fosse perfeita. A vida deles poderia ser, também, apenas uma ilusão? Eu decidi acreditar na história que nós somos apenas dois personagens de um conto. Descobri que existia até um registro por e-mail contando nossa história.

   Pensei sobre a vida daquelas pessoas que nos imaginam e, então, imaginei a vida deles também. Eu consegui sentir como se pudesse estar lá. Vi uma garota, ela estava sozinha no seu quarto. Estava triste, com uma nova foto recém-publicada no facebook. Aguardava ansiosa as novas curtidas de alguns dos seus 3.567 amigos. Passava um tempo mas continuava ansiosa e infeliz. Postava uma nova foto para tentar algum tipo de recompensa mental. De fato, só queria ser amada. Não cansava de dizer, todos os dias, ser amada e invejada, mas, na verdade, ela era apenas um ser humano comum, com toda a sua beleza e fraquezas. As vezes precisava de alguém perto.

   Nesse momento eu sinto que você está lendo, colocando parte de sua vida para me encontrar. Você sabe quem eu sou e eu sei quem você é. Então podemos dizer que somos amigos? Buddy, eu tenho uma pergunta para fazer para nosso novo amigo. Então, lá vai: Quem é mais real você ou nós? Buddy fez cara de confuso de novo e em seguida latiu parecendo querer muito dizer algo.

Um conto de Ricardo Janke

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