A escuridão de Hubert Mckennitt

dark-mac-dark-apple-road Acordei de um pesadelo horrível, mas não me lembro. Tentei olhar ao redor mas estava completamente escuro e eu não conseguia sentir meu corpo. Que sensação estranha! Pensei: – Será que estou morto? Afinal, como saber? Era como se minha consciência estivesse suspensa na completa escuridão, onde tempo e espaço já não mais existiam e o mundo material parecia algo muito distante. Eu não conseguia de forma alguma lembrar do meu nome, nem da minha vida, tampouco de algo sobre quem eu era ou o que tinha feito. Mas, tinha acesso a uma grande porção de conhecimento. Eu era capaz de pensar claramente sobre diversos assuntos.

Aquela estranha situação me fez refletir quem realmente eu sou. Quem somos nós, afinal? Um amontoado de elementos químicos organizados em uma forma desengonçada e sem nenhum propósito? Nossa vida pode ser definida por 1 terabyte de memórias, no qual está registrado tudo o que fizemos e o que conhecemos? Eu poderia ser um João, um Carl, uma Maria, tanto faz. Eu estava em uma realidade paralela naquele momento, onde nada existia, apenas minha consciência, separada de qualquer vestígio de mundo real.

O tempo poderia estar passando, ou não. Era impossível saber. Não sentia dor e nenhum tipo de desconforto. O corpo simplesmente não existia naquela condição. Eu me propus desenvolver um exercício filosófico na tentativa de entreter a minha mente. Imaginei uma vida inteira para completar essa lacuna de memórias perdidas. Decidi imaginar desde o nascimento, escolhendo meu próprio nome. Optei por Hubert, que tem origem germânica e quer dizer inteligência brilhante. Também me presenteei com o sobrenome de uma cantora chamada Loreena Mckennitt. Vi o nascimento desse novo ser humano, o pequeno Hubert Mckennitt era um bebê saudável, pesando quase 3kg. Acompanhei o jovem nos seus primeiros passos, em cada um deles. Fui ao primeiro dia de aula, fiz amigos, me machuquei no intervalo, como as crianças fazem.

Tive uma adolescência agitada, com os pais divorciados, tendo que ajudar a mãe a cuidar dos dois irmãos mais novos, Agatha e o pequeno Yuri. Trabalhava entregando jornais, era 1922 e eu tinha 16 anos. Observava atento a minha própria vida, tentando entender o que tudo aquilo poderia significar para o universo. Quando Hubert ficava triste eu também ficava, quando estava feliz, me alegrava junto.

Aos 23 anos, já tinha um emprego estável em um escritório no porto. Trabalhava com a exportação de uma fábrica de sapatos. Conheci Juliet, uma adorável jovem, filha do dono do negócio e nos casamos no verão. Tivemos dois filhos, uma casa, ajudei a administrar as empresas da família. Minha amada era doce, sempre linda aos meus olhos, preocupada em ser agradável e não pesada para os outros. Vi meus filhos crescerem, saírem de casa e se casarem, construindo suas próprias vidas. Minha mente estava fixa, concentrada em entender essa realidade. Eram adoráveis personagens e eu nutria amor e admiração por eles.

Envelhecemos juntos Juliet e eu e, então, compramos uma casa de campo, para viver mais sossegados em nossa velhice. Um dia eu acordei mas o meu amor não. A dor da morte é algo que nos apunhá-la fortemente na alma. Chegava a hora de abandonar aquela personagem que eu tanto amei. Ela viveria apenas na memória, já não seria real, material, era impossível tocá-la novamente. Enfraqueci no espírito com a sua partida. Caminhei sozinho pelo jardim todas as manhãs. A minha mente, separada daquela realidade, acompanhava Hubert como um fiel amigo, que observava com ternura. Como a imaginação é poderosa para criar memórias. Fiquei impressionado com isso.

O velho homem também se foi um dia e eu fiquei novamente sozinho naquela escuridão que parecia me revelar algum tipo de segredo. Qual seria a verdadeira diferença entre as memórias de uma vida material inteira e a vida de Hubert Mckennitt, que minha consciência imaginou? Será que somos realmente aqueles personagens, ou apenas observamos empaticamente a vida de cada um deles? Eu poderia ser Hubert. Eu poderia ser o seu conjunto de memórias, o seu corpo físico. Ou, eu sou apenas consciência?

Refleti muito a ponto de me vir um profundo sono, talvez eu ainda acordasse para uma outra vida.

Um conto de Ricardo Janke.

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