Era do hiperestímulo e a síndrome das celebridades instantâneas

A expressão celebridade instantânea refere-se a uma pessoa anônima que se torna famosa de maneira repentina, ganhando notoriedade por alguma razão peculiar. Com o surgimento das redes sociais popularizaram-se os “memes”, registros em algum produto midiático que se espalham rapidamente, sendo compartilhados milhares ou milhões de vezes na internet. Pessoas anônimas se tornam celebridades do dia para a noite ao terem a sua imagem exposta de forma “viral”. A busca por se tornar viral está sendo cada vez mais comum e faz com que algumas pessoas tentem realizar feitos absurdos ou muito perigosos para alcançar esse objetivo.  Então, buscando compreender esse fenômeno, consideraremos o conceito de hiperestímulo midiático ao qual a sociedade é exposta na atualidade.

O autor Ben Singer em seu texto Modernidade, hiperestímulo e o início do sensacionalismo popular indicou que a modernidade pode ser compreendida como a experiência subjetiva do indivíduo. Com as revoluções sociais iniciadas a partir do século XIX, o estilo de vida pacato no campo se transformou rapidamente em uma vida caótica nas grandes cidades, devido ao avanço do capitalismo. A partir desse momento ocorrem profundas transformações na experiência do indivíduo, que passa a se relacionar com novas tecnologias e um ritmo de vida mais acelerado. As experiências sensoriais vão sendo exploradas aos poucos com o surgimento da fotografia no final do século XIX, do cinema no início do século XX, e também com o advento do rádio e da televisão.

A internet e as mídias sociais revolucionaram ainda mais a percepção das pessoas e levou a ideia de hiperestímulo a um novo patamar. Neste início de século o facebook, rede social mais popular do mundo já conta com 2 bilhões de usuários, quase 1/3 da população do planeta. Na medida em que todos usuários possuem um avatar, uma representação gráfica/midiática de si, todos permanecem cada vez mais hiperexpostos e hiperestimulados. Conforme reportagem da Folha de São Paulo, o Brasil é o terceiro país que fica mais tempo conectado à internet, em uma média de três horas e 40 minutos por dia por pessoa.

Uma pesquisa realizada pelo Datafolha em junho de 2015 indicou que o smartphone é a ferramenta mais utilizada pelos jovens brasileiros para acessar a internet.  Existe uma relação intrincada entre o hiperestímulo midiático e a necessidade do consumo. Cada vez mais rápido esses produtos tecnológicos se tornam obsoletos e precisam ser substituídos por versões mais modernas e com maior desempenho na criação de produtos midiáticos pelo próprio usuário, como fotografias e vídeos.

A vida conectada e exposta gera uma demanda por conteúdo midiático individual a ser suprida diariamente. O advento dos influenciadores digitais, fenômenos da internet capazes de angariar milhões de seguidores, fez com que muitas pessoas comuns, anônimas, busquem se tornar celebridades. Muitos procuram criar um produto midiático que se torne viral e traga notoriedade instantânea. Essa constante exposição e estimulação nas redes pode trazer consequências desastrosas.  Monalisa Perez atirou no peito do seu parceiro Pedro Ruiz com uma pistola Magnun Desert Eagle na tentativa de fazer um vídeo viral para a plataforma Youtube. A ideia de Ruiz era usar um livro de capa dura para se proteger do tiro e escapar ileso. Infelizmente a “brincadeira” acabou de forma trágica. O rapaz veio a falecer e a namorada foi presa e pode ser condenada a 10 anos de prisão.monalisa2.jpg

Os “memes” que rapidamente se espalham pelas redes sociais nem sempre ficam felizes com a exposição. Em alguns casos imagens são repercutidas de forma criminosa, com intenção de caluniar alguma pessoa pública ou anônima. A deputada Maria do Rosário pediu à Polícia Federal que investigue e encontre os responsáveis por publicar fotos sem autorização da sua filha de 16 anos, que aparece debilitada em fotos no Instagram. Comentários ofensivos e difamatórios são facilmente identificados nas redes sociais, vinculados às imagens da adolescente, que foram divulgadas em várias redes sociais. Não é por se discordar de uma personalidade pública, de um político, que se torna justificável a difamação, calúnia ou outro tipo de agressão.

Na atualidade somos constantemente bombardeados por estímulos sensoriais que nos induzem ao consumo exacerbado, seja de bens materiais ou simbólicos, ao ponto que o próprio “meme” e recortes da vida alheia se tornam produtos de entretenimento.

Ricardo Janke

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